TECHO DE PAJA (ARGENTINA)
de Constanza Pasian (11'56''/ 2020)
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A questão da descrição, e suas tantas modalidades, está presente no
cerne das disputas que dão unidade aos campos da Arte, da Ciência
e da Religião. Pois o ato de descrever o que é possível apreender
através dos sentidos está diretamente relacionado aos modos humanos
de abstração, organização e comunicação.
Na Ciência, os embates em torno dos conceitos e teorias têm como
orientação a natureza mesma do ato descritivo. Enquanto na Religião,
ao intentar traduzir em termos propriamente humanos o caráter
divino do divino, a descrição assume uma importância particular.
É, portanto, tomando o processo de sua realização como possibilidade
mesma do saber que lhe diz respeito (como faz a Ciência), sem,
entretanto, deixar de entender este saber como algo que não se
dá à despeito da experiência subjetiva (como faz a Religião) que a Arte,
à sua maneira, lança mão da descrição de modo próprio.
"Techo de Paja", de Constanza Pasian, é, por assim dizer, um exemplo
disso que, no âmbito da descrição, faz distinguir o escopo da Arte
dos outros. E isso dito não em termos generalistas, fugindo ao debate,
no sentido de que, evidentemente, toda Arte é, à fundo e majoritariamente,
um esforço descritivo. Pois "Techo de Paja" ao optar pela abordagem de
descrição que lhe define, opta também por fazê-lo paradoxalmente
– e é por sobre esta opção que o filme se estrutura.
O que significa dizer que "Techo de Paja", em sua aparente literariedade,
não é por fim mais fiel ao real que outros filmes, e nem que, em função
de seu demarcado realismo, se aproxime, na prática, de um construto
científico. Pois em "Techo de Paja" a descrição se dá em termos
intrinsecamente contemplativos, reverentes, aproximando-se também
da descrição religiosa – sem compactuar-se com ela –, ao tecer, a partir
das franjas do olhar, isto é, daquilo que está para além do horizonte real
dos sentidos, um real aproximado, pessoal, que organiza o todo em
impressões pouco ou nada objetivas ainda que se aparentando dessa
maneira.
E isso porque ao optar pelo caráter específico da descrição que lhe conduz,
lança mão do ato de descrever não como retratação fidedigna do real,
mas como possibilidade, em termos Estéticos, de uma apropriação deste
real descrito (i.e. do produto do olhar como coisa distinta da coisa olhada)
em prol de uma ideia de realidade que se emancipa significativamente do
real, constituindo seu discurso. Pois seu Realismo é, por assim dizer, idealizado.
E nesse paradoxo, "Techo de Paja" se constitui tendo a descrição como o
"dizer" que sustenta seu discurso à despeito do objeto de sua descrição.
E é assim que, embora se apresente destinado a mostrar como algo se
faz construir pelas mãos humanas(num dado lugar e instante), ele enfatiza,
pelo contrário, como ele mostra algo – de modo efêmero, é verdade, como a
"palha" do campo, mas ordenado e rígido, ademais, como as amarras que
as juntam à estrutura.
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T Augusto Pereira
(Pássaro Preto)